A Doença do Orgulho – Jean Yves Leloup

“ De modo geral, (as pessoas ) esforçam-se para eliminar o orgulho, sabendo que orgulho é o começo da ilusão e a ausência de orgulho o começo da verdade, que estas duas atitudes são como duas fontes: da ilusão brotam as diversas espécies de males e da verdade, a multidão dos bens humanos e divinos” .

Adquirir um olhar claro e esclarecedor, para a pessoa, é adquirir a humanidade. Fílon vê na raiz de todos os males aquilo que se traduz por orgulho, mas que também se poderia traduzir por “desmedida” (hybris) ou por inflação. Todavia, o têrmo orgulho denota o caráter consciente, livre, da aquiescência à desmedida ou inflação.

Para os antigos, o orgulho é na verdade uma doença, uma loucura, porque é considerar-se o que não se é,  identificar-se com uma inchação, conceder importância ao que secretamente sabemos ser irrisório (pois o ser humano sabe que não é o Ser, e que ele mesmo não é subsistente).

O orgulhoso anda sempre ávido de reconhecimento, vive no temor e na preocupação de perder a importância; o humilde “é o que é”; livre da preocupação de aparecer (e sobretudo da preocupação de parecer humilde), pode admirar-se de ser. Lisonjas e calúnias não provocam nele “ reação” alguma. Isso não quer dizer que sejam indiferentes, mas, como não alimentam pretensão alguma, não há nada a defender.

O humilde é, e basta. Eliminar o orgulho, para a pessoa, é relativizar o eu, o ego, que não para de ordenar, exigir, pedir, esperar de fora a confirmação do ser que falta dentro dele.

Neste sentido, a solidão é uma prova necessária para pessoa: aceitar não existir para ninguém. Nossa existência depende unicamente do Ser.

Seria, sem dúvida, interessante analisar como “da ilusão decorrem as diversas espécies de males da verdade, a multidão dos bens humanos e divinos” . Frisemos simplesmente que, para Fílon, e também para padres de igreja posteriormente, a queda do homem é a conseqüência de lançar um olhar egocentrado sobre o mundo. “Eu chamo isto de bem, porque isto me apraz; eu chamo isto de mal, porque não me apraz” (o livro Gênesis, simbolicamente, chama isto de provar o fruto da árvore do conhecimento egocentrado).

Ser humilde verdadeiro supõe que se lance um olhar ontocentrado sobre o mundo: “O que é… é; o que não é… não é; quer me agrade ou não me agrade” (o livro do Gênesis, simbolicamente, chama isto de o da “árvore da vida”, a árvore do conhecimento ontocentrado. Veja os seres a partir do Ser que lhe dá o ser ou os “existencifica”, sem reação subjetiva, isto é, sem manifestação do ego).

O modo de olhar o mundo pode fazer dele um paraíso ou inferno. A pessoa orgulhosa aprisiona todas as coisas no seu olhar; está ela mesma encerrada nessa autoprojeção que toma pela a realidade. A pessoa humilde e verdadeira, porém, restitui todas as coisas à sua identidade e a sua liberdade. Está bem posicionada para receber qualquer ser como um dom, na claridade do Bem essencial que dá a tudo o que é e respira “a graça de ser”…

O Logos faz sonhar

    “Em cada habitação há um lugar sagrado chamado ‘santuário’ ou mosteiro: é lá que, isolado, cumprem os mistério da vida santa. Nada levam para o santuário, nem bebida nem comida, nem nada do que é necessário ao corpo, mas somente as Leis, os Oráculo dos profetas, os hinos e os outros livros pelos quais aumentam e aperfeiçoam a ciência e a piedade. Deus está sempre presente a seu espírito; mesmo em seus sonhos não imaginam outra coisa senão a beleza das virtudes e das Potências divinas; também muitos deles, quando têm um sonho em seu sono, revelam em alta voz as doutrinas admiráveis da filosofia sagrada”.

Jean Yves-Leloup – Cuidar do Ser

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    About Marilda Limberger

    Marilda Limberger, psicanalista, analista didata, coordenadora de grupos. Atende em Taguatinga-DF na QNE-02, lote 1 sala 205 - Bonbini Clínicas.
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